domingo, 9 de julho de 2017

FIM DAS ATIVIDADES DO BLOG


O blog Legião Eucarística anuncia que está encerrando suas atividades permanentemente. 
Tornou-se com o tempo quase impossível manter o blog atualizado, por isso, decidimos encerrar nossas publicações. 

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Caso queiram saber mais sobre nossas novas atividades, procurem por Grupo de Estudos Alétheia.  

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A falácia dos povos ateus


Por Erick Ferreira





Nunca, em nenhuma sociedade humana, desde que os homens se tornaram criaturas racionais, vieram, ou teriam vividos, sem religião

Leo Tolstoy, What is religion



Lançai um olhar por toda a superfície da terra, e podereis achar cidades sem trincheiras, sem letras, sem magistrados, povos sem habitações, sem uso de dinheiro, mas um povo sem Deus, sem orações, sem ritos religiosos, sem sacrifícios, nunca se viu

Plutarco










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Há duas disposições que são próprias do gênero humano: o senso de beleza e a disposição para a religião. Ambas se verificam facilmente por toda parte. Vamos tratar primeiro desta última: a predisposição religiosa do homem, algo que o separa radicalmente dos seres irracionais.

Toda a terra está repleta das experiências religiosas do homem, de modo que há tempos se constatou que todos os povos sempre foram religiosos, demonstrando assim que a existência de Deus e a sua busca é uma necessidade sentida por todos os homens em todas as épocas. Até mesmo os poucos ateus – que sempre existiram em estado errático, como diz Armand de Quatrefages – nunca conseguiram se esquivar totalmente deste problema, e passaram suas vidas inteiras inquietos com a ideia de um Deus.

Embora existam algumas objeções a afirmação de que não existam povos ateus, elas são muitos frágeis para se sustentar. Apresentemos aqui algumas delas.
David Hume em sua obra History of natural religion, insinuou que poderiam existir povos sem religiões, evocando certos relatos de viajantes: “Se aquilo que os historiadores e os viajantes dizem é verdade, foram descobertas algumas nações que não mantinham quaisquer opiniões religiosas”. Percebe-se neste trecho uma clara insegurança do autor em sua afirmação.
Alguns anos depois, outra afirmação muito semelhante em defesa da existência de povos ateus vem se somar a de Hume. O renomado historiador Will Durant, escreveu em sua The Story of Civilization: “Se definirmos a religião como o culto das forças sobrenaturais, devemos observar que no início de alguns povos não havia religião. Em certas tribos de pigmeus da África não se observava culto ou ritos; eles não tinham totem; nem fetiches; nem deuses; eles sepultavam seus mortos sem cerimônias, e pareciam dar pouca importância a elas; eles tinham carência de superstições, isto se pudermos acreditar de alguma forma nos incríveis relatos de viajantes”. (DURANT, 1942, p. 56).
As afirmações de Durant, assim como a de Hume estão fundamentadas sobre testemunhos de viajantes; viajantes de um passado bem remoto, em especial, do geógrafo grego Strabo, (64 a.C. – c.23 d. C) que registrou esta suposta descoberta em suas Geográfias (I, 2, 8).
Mas tal relato contrasta radicalmente com uma indiscutível autoridade dos tempos de Strabo. O escritor grego Plutarco, o afamado pai da biografia (46/49, 125, a. C) que viveu alguns anos antes de Strabo, e escreveu em suas Morais (Vol. V, Contra Colotes) este relevante testemunho: Lançai um olhar por toda a superfície da terra, e podereis encontrar cidades sem muralhas, sem literatura, sem reis, sem habitações, sem uso de dinheiro, sem teatros e lugares de exercício, mas um povo sem templos e deuses; sem orações, sem ritos religiosos, sem sacrifícios, tal, nunca se viu (PLUTARCO, 1883, p. 920) E continua o autor na mesma obra: “É mais fácil fundar uma cidade no ar do que construir uma cidade sem a crença nos deuses”.

A afirmação de Plutarco vem receber confirmação da etnografia do Dr. Friedrich Ratzel – aclamado como “Pai da Geografia Moderna” – que assim escreve em sua História da Humanidade: “A etnografia não conhece raças desprovidas de religião, mas somente diferenças no grau em que as ideias religiosas estão desenvolvidas” (RATZEL, 1896, p. 40), e junto a esse importante relato da etnografia, ainda acrescento a conclusão notável do célebre naturalista francês Armand de Quatrefages, que em sua histoire générale des races humaines assim pontifica: “Após longo tempo de estudos detalhados sobre todas as raças do globo, cheguei a conclusões absolutamente contrárias as precedentes [...] Procurei o ateísmo com o maior cuidado, e não o encontrei em lugar nenhum, a não ser em estado errático; entre algumas seitas filosóficas de nações das mais antigas civilizações.” (QUATREFAGES, 1887, p. 252-283)

Mas, além destes breves testemunhos de especialistas, ainda resolvi reunir o testemunho de notórios ateus e anticlericais que muito a contra-gosto deporam em favor desta verdade, como Jean-Jacques Rousseau, que em seu Do Contrato Social escreveu: “Jamais se fundou nenhum Estado, sem que a religião se servisse de fundamento” (1.4, c. 8); e ainda, a opinião de Voltaire, que costumava terminar suas cartas com uma frase tenebrosa “Esmagai a infame”, em referência a Igreja. Este ferrenho inimigo da religião, assim escreveu em seu Tratado da Tolerância: “Onde quer que há uma sociedade, a religião é de todo necessária” (Tratado da Tolerância, c. 20)

Esta predisposição natural dos homens pela religião – facilmente observada em todos os povos – segundo alguns ateus, trata-se de uma resposta evoluída da natureza. Se esta tese estiver correta, significa, conseguintemente, que o ateísmo só existe em estágios inferiores da humanidade e entre os animais.
Há desejos no homem que o impelem inevitavelmente ao absoluto, como o desejo de beleza, de verdade, de amor, de bondade, e tais desejos não encontram respostas satisfatórias no imanente, no material, e no limítrofe horizonte da realidade física, ele tem que lançar-se na transcendência que só a experiência religiosa pode oferecer. Pois o homem não pode conter seu ímpeto de infinto, sua vontade de sentido, por isso, não pode viver sem religião.


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O fato de encontrarmos tão poucos adeptos do ateísmo, e poucos povos que o tenham por aceitável, nos mostram que o ateísmo nunca foi um fenômeno natural na humanidade. Os primeiros sinais de povos cuja religiosidade é mínima, é próprio da modernidade. E tal fenômeno, como é facilmente observável, não nasce espontaneamente, nasce de forma artificial, forjado por Estados e instituições que passam a ser controlados por minoras anti-religiosas, e a partir da máquina estatal, passam a promover o ateísmo entre o povo. Porém, o modo como a promoção do ateísmo acontece na modernidade é digno de nota. Busca-se, em primeiro lugar, tornar odiosa a religião a vista de todos por meio de calúnias e difamações incessantes contra ela. Tal ação gera no povo, antes uma teofobia em vez de ateísmo propriamente dito, e consequentemente, o abandono da religião hegemônica.
Por isso assistimos sociedades que outrora foram profundamente religiosas como a Suécia, Canadá, Alemanha, etc, em pouco tempo se converterem em sociedades anti-religiosas.
Por outro lado, se observa na história que nenhuma sociedade pode ficar por muito tempo sem uma religião. Quando uma religião é deixada de lado, logo, outra se apresenta para ocupar o seu lugar. Por isso, nestes países supracitados se constata uma adesão maciça de seus cidadãos a seitas exóticas ou totalmente opostas aos valores culturais nos quais estas sociedades nasceram. Portanto, não se pode dizer que estes países se tornaram ateus, ou indiferentes a religião, se tornaram simplesmente anti-cristãos, e por conseguinte, tendem a buscar religiões que estejam mais distantes do espírito cristão.


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Bibliográfia:

DURANT, Ariel., DURANT, Will. The Story of Civilization – Our oriental heritage. Vol. 1, New York: Simon and Schuster, 1942. 
PLUTARCO, Morals. Vol. 5 Boston: Little, Brown and Company, 1883.
QUATREFAGES, Armand. histoire générale des races humaines: introdution a l’étude des races humaines. Paris: A. Hennuyer, Imprimieur-éditeur, 1887.
RATZEL, Friedrich. The History of Mankind, vol. I. Translater: A. J Butler, London: MaCmillan and Co, 1896.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

As inconveniências morais do liberalismo





Princípios liberais são: a absoluta soberania do individuo com inteira independência de Deus e da sua autoridade; soberania da sociedade com absoluta independência do que não provenha dela mesma; soberania nacional, isto é, o direito do povo para legislar e governar-se com absoluta independência de todo o critério que não seja o da sua própria vontade.
D. Félix Sardá y Salvany [1]



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   Friedrich von Hayek seguindo a tradição clássica liberal, apresenta a liberdade como a “independência da vontade arbitrária de outrem” [2]. Obviamente, esta definição é muito vaga para definir um conceito tão complexo e explorado por tantas doutrinas diferentes como é o conceito de liberdade, entretanto, este parece ser o conceito mais evocado entre os pensadores liberais.
Mas antes de fazer desta liberdade o suprassumo da existência, é necessário compreender o que ela significa na prática. Tal tarefa nunca foi tão simples, de modo que na língua inglesa, (língua materna do liberalismo) existem dois termos para se referir a liberdade: freedom e liberty.
Por que duas palavras para se referir a mesma realidade? Todos os grandes pensadores ocidentais, especialmente os ingleses, que se dedicaram a esta questão, notaram que haviam muitas noções de liberdade entranhadas no imaginário popular, mas, especificamente dois conceitos eram os mais comuns. Um deles se referia ao estado de liberdade de limitações de ordem legal; ou ausência de intervenções na vida das pessoas por autoridades arbitrárias, a que convencionaram chamar liberty. A outra se referia a uma certa autonomia individual em relação, tanto a autoridade arbitrária, quanto a prescrições morais ou intervenções de quaisquer natureza na vida publica ou privada, a que chamaram freedom.
Foi a esta primeira palavra, liberty, que se referiu Hayek ao definir a liberdade como “a independência da vontade arbitrária de outrem”; e a ela se referiu John Stuart Mill ao escrever seu famoso ensaio On liberty (1869), um dos fundamentos teóricos do liberalismo clássico.
Portanto, a liberdade que norteia o liberalismo não é a liberdade interior expressa na teologia católica; nem a liberdade naturalista e descompromissada dos hippies; mas a liberdade civil ou social dos indivíduos, que lhes permitem tomarem decisões sobre suas próprias vidas sem sofrer intervenções de qualquer autoridade por conta destas decisões.
Mas, e se essas decisões forem prejudiciais ao individuo que as adota? Não seria um ato de caridade intervir de alguma forma para impedir a sua tragédia pessoal? Stuart Mill responde a esta interrogação da seguinte forma: “Sobre si mesmo, sobre seu próprio corpo e sua mente, o individuo é soberano”. E algumas linhas adiante, continua: “O único propósito com o qual se legitima o exercício do poder sobre algum membro de uma comunidade civilizada contra a sua vontade, é impedir dano a outrem. O próprio bem do individuo, seja material, seja moral, não constitui justificação suficiente”. Perceba que o liberalismo de Stuart Mill não se preocupa tanto com o bem estar do indivíduo; preocupa-se exclusivamente com sua liberdade, independentemente se esta liberdade for para o bem ou para o mal.
Este argumento é constantemente evocado contra as internações compulsivas de alcoólatras e usuários de drogas que vagam ao leu pelas metrópoles e qualquer intervenção na vida de pessoas que padecem das mais degradantes situações. O argumento oposto, geralmente é o de que ninguém sabe o que é melhor para si do que o próprio individuo.
Mas tais situações, tão corriqueiras em nossa contemporaneidade, nos mostram que os indivíduos entregues a própria vontade nunca souberam se orientar sozinhos sem interferências benéficas, seja de religiões ou de uma tradição familiar; eles sempre precisaram do auxílio de uma comunidade organizada de pessoas, que por sua vez, tiveram que aprender com séculos de experiências registradas em uma tradição – religiosa, na maioria dos casos – sobre a melhor forma de se portar em sociedade e se orientar na vida. A princípio, foi do relacionamento entre Deus e o homem apresentado pelas religiões que as sociedades estabeleceram as formas mais adequada de relação entre seus cidadãos. O cristianismo incluiu nas relações humanas um princípio imprescindível: a caridade como mediador das relações. Tal caridade se apresenta esplendidamente em um trecho de uma epístola de S. João: “Se alguém diz: Amo a Deus, mas odeia o seu irmão, é mentiroso, pois não ama o seu irmão a quem vê, como amará a Deus a quem não vê?” (I João 4, 20). O liberalismo ao proclamar a consciência humana como a suma juíza dos atos morais e a liberdade como o sumo bem da existência, excluiu definitivamente a soberania de Deus sobre as vontades, implicando consequentemente na exclusão da caridade cristã como reflexo da devoção a Deus e regimento das relações em sociedade. Esta mudança converteu as relações sociais em meros jogos de interesses, tornando o individualismo a medida padrão de tudo. Quem mais afagar e servir os egos inflados pelo individualismo, mais será digno de ser amado; mas quem estaria disposto a tal atitude, num mundo onde todos buscam serem amados e servidos? Por isso, ao contrário do que se esperava, as relações humanas na modernidade não se tornaram mais livres; tornaram-se, pelo contrário, mais dependentes.
Se o homem for entregue a sua própria vontade, com a absolutização do seu eu, sem qualquer tipo de intervenção em suas ações, em pouco tempo ele estará arruinado. E quando falo em intervenção, não me refiro especificamente em intervenção coercitiva, mas em interferências morais, como o fez a religião e a família ao longo de tantos séculos com suas críticas construtivas a condutas degradantes praticadas na vida privada, tais como: uso de entorpecentes; aborto; prostituição, suicídio, etc. Pois mesmo que tais ações, aparentemente digam respeito unicamente ao individuo que as pratica, ela afeta a todos que estão a ele ligado, direta ou indiretamente.
Por isso, neste princípio apresentado por Stuart Mill, reside o ponto mais perigoso desta liberdade que orienta o liberalismo: acreditar que o homem se basta; que não precisa de uma autoridade; ou pode prescindir da coletividade em todas as suas decisões [ ]; que a sua vontade é absoluta; e que não há uma verdade objetiva a guiar a boa conduta, a que todos devem obedecer, reconhecida pela tradição ao longo de séculos.
Por isso, o liberalismo nasce do mesmo germe revolucionário que gerou o comunismo; entoa o mesmo grito de rebelião que ecoou na história e na eternidade: non serviam; rejeita a mesma tradição que conduziu a humanidade por tantos séculos; e sonha com a mesma redenção terrena, e deifica o homem como o único senhor a ser servido. Por isso, o liberalismo é meramente um irmão dialético do comunismo.
Por essa defesa intransigente da soberania individual, o liberalismo é, essencialmente, um sistema ateu, e seus princípios inconciliáveis com a fé católica, pois não reconhece a soberania de Deus e a autoridade da religião.
Por este motivo, escreveu Mons. Felix Salvany:
Na ordem das ideias, é um conjunto de ideias falsas; na ordem dos fatos é um conjunto de fatos criminosos”. Ao escrever estas duras palavras, D. Salvany, possuía razões justíssimas e ponderáveis, e a mais grave delas, por certo é, a deificação da consciência humana, que tais ideias implicam. Pois num mundo onde todos os homens são deuses, não há espaço para a caridade, pois todos acreditam que devem ser servidos; não há espaço para a fé pois todos acreditam que devem ser cultuados.
Mas tal postura culmina em uma grande frustração social para os seres individualistas nascidos desta mentalidade liberal, eles terão que disputar o posto mais elevado do panteão com outros milhões de semi-deuses que também buscam seus adoradores.

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1. O liberalismo é pecado. São Paulo: Editora Panorama, 1949, p. 17-18
2. The Constitution of liberty (1960). Edição brasileira: Friedrich von Hayek. Os fundamentos da liberdade, Trad: Ana Maria Capovilla e José Italo Stelle. São Paulo: Visão, 1983, p. 5
3. A este respeito, sou concorde a posição de um liberal Jacques Maritain: “o homem não pode progredir na sua vida específica que lhe é própria, ao mesmo tempo intelectual e moralmente, se não fôr auxiliado pela experiência coletiva que as gerações precedentes acumularam e conservaram, e por uma transmissão regular de conhecimentos adquiridos” (Rumos da educação. 4º ed. Rio de Janeiro. Editora Agir, 1966. p. 27)


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O anticristo na descrição do venerável Fulton Sheen




Venerável Fulton J. Sheen (1895 –  1979), bispo de Rochester entre 1966 e 1969



 Por Fulton J. Sheen I Tradução e Notas: Erick Ferreira


“Estamos vivendo nos dias do Apocalipse – os últimos dias de nossa era... As duas grandes forças do Corpo Místico de Cristo e do Corpo Místico do Anticristo estão começando a traçar as linhas da batalha para uma disputa catastrófica. 

O Falso Profeta terá uma religião sem cruz. Uma religião sem um mundo por vir. Uma religião para destruir as religiões. Haverá uma igreja falsificada. A Igreja de Cristo será uma só, mas o Falso Profeta criará a outra. A falsa igreja será mundana, ecumênica e global. Será uma federação dispersa de igrejas e religiões formando algum tipo de associação global, – o parlamento mundial de igrejas. Será esvaziado de todo conteúdo divino e será o corpo místico do Anticristo.

O corpo místico na Terra hoje terá seu Judas Iscariotes e ele será o falso profeta. Satanás o recrutará entre os nossos bispos. 

O Anticristo não será assim chamado; caso contrário, ele não teria seguidores. Ele não usará calças vermelhas, nem vomitará enxofre, nem carregará um tridente, nem exibirá uma cauda como Mefistófeles em Fausto [1]. Essas máscaras ajudaram o Diabo a convencer os homens de que ele não existe. Quando nenhum homem o reconhecer, mais poder ele exercerá. Deus se definiu como “Eu sou quem sou”, e o Diabo como “Eu sou quem não sou”.

Em nenhum lugar das Sagradas Escrituras encontramos justificado aquele mito popular que retrata o Diabo como um bufão que está vestido de “vermelho”; pelo contrário, ele é descrito como um anjo caído do céu, como “o príncipe deste mundo”, cujo negócio é dizer-nos que não existe outro mundo. Sua lógica é simples: se não há céu, não há inferno; se não há inferno, então não há pecado; se não há pecado, então não há juiz, e se não há juízo, então o mal é bom e o bem é o mal. Mas acima de todas essas descrições, Nosso Senhor nos diz que ele será muito semelhante a Si mesmo, e que ele irá enganar até mesmo os eleitos – e certamente nenhum diabo jamais visto em livros ilustrados poderia enganar até mesmo os eleitos. Como ele virá nesta nova era para conquistar seguidores de sua religião?
A crença russa pré-comunista é que ele virá disfarçado como um grande humanista; [2] ele falará em paz, prosperidade e abundância não como meio de nos conduzir a Deus, mas como fim em si mesmos…
Na terceira tentação em que Satanás pediu a Cristo para adorá-lo e todos os reinos do mundo seriam d’Ele, se tornará a tentação de ter uma nova religião sem cruz; uma liturgia sem um mundo por vir; uma religião para destruir uma religião; ou uma política que é uma religião – que dá a César até as coisas que são de Deus.

No meio de todo seu aparente amor pela humanidade e de sua eloquente fala de liberdade e igualdade, ele terá um grande segredo que não dirá a ninguém: ele não acredita em Deus. Porque sua religião será fraternidade sem a paternidade de Deus, ele vai enganar até mesmo os eleitos. Ele vai erguer uma contra-igreja que será um arremedo da Igreja, porque ele, o Diabo, é o arremedo de Deus. Ela terá todas as notas e características da Igreja, mas totalmente esvaziada de seu conteúdo divino. Será um corpo místico do Anticristo que, em todos os aspectos externos, se assemelhará ao corpo místico de Cristo... Mas o século XX se unirá à contra-igreja porque afirmará ser infalível quando seu líder visível falar ex-cathedra de Moscou sobre o tema da economia e da política e como pastor e chefe do comunismo mundial.”


Fonte: Fulton J. Sheen, Communism and the Conscience of the West. Bobbs-Merril Company, Indianapolis, 1948), pp. 22-25.


Notas:

1. Obra mais famosa de Johann von Goethe
2. Refere-se ao filosofo russo Wladimir Soloviev que escreveu “O conto do Anticristo”

sábado, 28 de janeiro de 2017

A morte da masculinidade: para onde foram todos os homens?




Por John Stonestreet
Tradução e notas: Erick Ferreira 



"O lenhador": Abraham Lincoln aqui é retratado como um jovem cortando madeira. (Foto: Wikimedia Commons)


               Para onde foram os homens? Muitas pessoas estão fazendo esta pergunta e procurando respostas em lugares errados.
Estaremos no meio de uma crise da masculinidade? Dois escritores cristãos oferecem respostas muito diferentes a esta questão. Em recente artigo, David French no National Review lamenta uma nova estatística que mostra que os jovens de hoje são, fisicamente, a geração mais fraca registrada na história.
Se você é um ‘tipo comum de nosso século’1, escreve ele, ‘seu pai, provavelmente, é mais forte do que você’. Na verdade, você não pode ser mais forte nem do que a ‘mulher típica deste século’. A própria ideia de trabalho pesado é estranha a você, e digamos que mesmo que você fosse convidado a ajudar a construir uma varanda, a tarefa seria tão exaustiva para você, a ponto de desgastá-lo. Seja bem-vindo a nova realidade pós-masculinidade”.
Chandler Epp respondeu a French em uma coluna de convidados no Religions News Service, argumentando que a ideia de masculinidade como algo equivalente a força física é equivocada.
A noção cristã popular de masculinidade, – escreve ele –, envergonha, repele e arruína muitos rapazes e homens que não conseguem cumprir essas tarefas, e que não gravitam em direção ao comportamento masculino típico. Ele conclui: devemos recuperar a ideia de que a marca de um verdadeiro homem é a sua força moral, não sua capacidade muscular”.
Agora eu sei, pessoalmente, que Chandler e French, e eu temos muito respeito por ambos (os tipos de homens de que falam). Na verdade, ambos demonstram esse tipo de força moral que Chandler fala em sua obra. Chandler, está certo de que quando a maioria das pessoas pergunta: “Onde estão todos os homens?” O que elas querem dizer, na verdade, é algo como: “Onde estão todos os lenhadores?” Eles querem saber porque tão poucos homens hoje em dia podem realizar façanhas de força física como, construir suas próprias casas, ou reparar carros sem a ajuda de um mecânico.
Houve um tempo em que esses tipos de habilidades eram cruciais para cumprir o mandato da criação. Expressar a imagem de Deus para a maioria dos homens na história significava ser capaz de caçar, alimentar os animais da fazenda ou acender um fogo na lareira. E eu agradeço todos os dias por aqueles, como meu pai, que ainda fazem esse tipo de trabalho, mas a era da força bruta está, em muitos aspectos, ultrapassada, e este seria o fim do argumento se estivéssemos vendo ao mesmo tempo um aumento correspondente em outros tipos de forças menos tangíveis: como a coragem moral, fortaleza, liderança, e uma disposição pelo sacrifício. Mas não estamos. Pelo contrário, por uma questão de fato, a maioria dos homens de hoje não é apenas fisicamente mais fraca do que as gerações anteriores, eles são mais fracos como pessoas: Indivíduos atingidos pelaSíndrome de Peter Pan”, nunca deixando a adolescência; encontrando “lugares seguros” nos campus universitários que os protegem perpetuamente como frágeis vítimas de um constante debate; a cultura do sexo casual2 e a dependência da pornográfia; e a revolução sexual que promulga através da mídia, da educação e agora da lei, que não existe mais tal coisa como macho e fêmea. O que estamos assistindo não é uma expressão diferente da masculinidade se adaptando a novas realidades culturais. O que estamos vendo não é masculinidade!
A masculinidade real pode se parecer com Greg Thornbury, presidente do King's College em Nova York, que tem um peso corporal que eu não vi desde a 8ª série, jaqueta de tweed e óculos de Harry Potter. Ele não é um lenhador, mas como um defensor da teologia do som e da educação cristã em uma cidade que é hostil a ambos, ele é um dos homens mais fortes que conheço. Ou masculinidade pode se parecer com Chuck Colson, um fuzileiro naval, o "capacho"3 de Nixon; homem duro de todos os lados, a ser tocado por Cristo antes de ir para a prisão. Não era incomum ver Chuck derramando uma lágrima sobre uma verdade eterna do Evangelho ou uma vida transformada. No entanto, ele tipificava a força masculina como deveria ser.
Irineu, o primitivo Pai da Igreja, disse: “A glória de Deus é o homem plenamente vivo.” E o homem plenamente vivo não banca a vítima, nem se refugia em um senso de jurisprudência, ele abraça o mandato de criação para “encher a terra e subjugá-la”. Ele é um criador, não um perpétuo subjugado.
É esse tipo de masculinidade que está em falta desesperadamente nesses dias. É um tipo de masculinidade que não tem nada a ver com o tamanho do peitoral.


John Stonestreet é presidente do The Chuck Colson Center for Christian Worldview e colaborador do BreakPoint.
Fonte: cnsnews.com


Notas:
1. O autor usa o termo millenials que se refere as pessoas nascidas de 1980 a 1990, e que tem como características principais, o narcisismo e a preguiça. Não encontrando um equivalente no português para o termo, optei por utilizar a expressão tipo comum de nosso século’ que soa mais claro ao leitores.
2. Hookup Culture é um termo que refere-se ao sexo casual, que de certo modo, se naturalizou entre a juventude dos grandes centros urbanos.
3. O autor usa a expressão Hatchet man, algo que no Brasil pode ser traduzido por capacho. Chuck Colson foi um homem de confiança de Richard Nixon, e foi preso por envolvimento em atos de obstrução de justiça durante o caso Watergate.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Clássicos da espiritualidade em PDF






por Stº Afonso Maria de Ligório

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            Se a oração é útil para a vida espiritual, talvez não o seja menos a leitura de livros de piedade. Segundo S. Bernardo, nós na leitura espiritual aprendemos, ao mesmo tempo, a fazer oração e a praticar as virtudes. "A oração e a leitura são armas, dizia, com que se pode vencer o inferno e adquirir o paraíso". Nem sempre podemos ter junto de nós o padre espiritual para nos ajudar com seus conselhos em todas as nossas ações, e especialmente em nossas dúvidas; mas a leitura supre tudo, fornece-nos as luzes necessárias e ensina-nos como havemos de proceder para evitar as ciladas do demônio e do nosso amor próprio e para conformar-nos com a vontade de Deus 

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Para tirardes proveito da leitura espiritual, observai o seguinte:
Primeiro, antes de começar, é preciso recomendar-se a Deus, a fim de ser esclarecido por sua luz nas coisas que se vão ler. Em segundo lugar, ler unicamente para progredir no amor divino, e não para se instruir ou satisfazer a curiosidade. S. Gregório dizia: "Muitos lêem, e lêem muito, mas depois da leitura, acham-se em jejum, como se nada houvessem lido, porque o fizeram somente por curiosidade". Em terceiro lugar, para tirar fruto da leitura espiritual é preciso ler devagar e com reflexão. É mister ponderar bem o que se lê, aplicando a si mesmo as resoluções práticas que se insinuam. Ao terminar a leitura, escolher algum sentimento mais piedoso que se tenha dela, e levá-lo consigo, como se faz com uma flor de um jardim, onde se tenha estado a recrear-se.



SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. 
O religioso santificado. Petrópolis: Editora Vozes LTDA, 1949. 
p. 167-170


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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A mentalidade revolucionária



                        Antes de confluir para a política, para a cultura, para a religião, para a economia, a revolução, como toda revolta, começa no coração do homem, que se vê como deus e senhor, e por esta “augusta condição”, acredita que a natureza existe unicamente para satisfazê-lo. Esta insana pretensão que acomete qualquer individuo no alto de sua imaturidade, pode ser curada nas suas primeiras manifestações (geralmente na adolescência) com uma boa dose de realismo, se não, ela se alarga vertiginosamente, atingindo níveis colossais e indomáveis, até se converter numa grande explosão de ódio contra a ordem imodificável da natureza e seus inevitáveis percursos.

A revolução, portanto, tem um inicio tímido em alguns indivíduos soberbos que presunçosamente acreditam haver encontrado a formula mágica para todos os problemas  da humanidade. O problema se deflagra quando estes indivíduos excêntricos encontram outros que seguem a mesma perspectiva, – e tristemente, não são poucos os que partilham desta visão distorcida de si e da realidade.

Em uma “santa aliança”, estes indivíduos se associam para cumprir aquela “sagrada” missão que seus egos lhe impõem: transformar o mundo. Por amor a humanidade? Certamente não. Nunca se viu nenhum revolucionário capaz de fazer a mínima caridade que estava dentro de suas possibilidades. Pelo contrário, abundam relatos da avareza, mesquinhez e ingratidão de suas vidas. A Marx se deve os piores defeitos morais que um individuo possa ter. J. J Rousseau, fora cruel e arrogante, chegando a colocar seus filhos em um orfanato para não ter com eles nenhuma responsabilidade; Voltaire, fora mercador de seres humanos. Quase todos os revolucionários eram indivíduos cheios de defeitos morais, no entanto, autossuficientes, a ponto de pensar que seriam capazes de corrigir o mundo, ao mesmo tempo em que eram incapazes de corrigir o menor de seus defeitos.  

Estes indivíduos, numa espécie de surto auto-deificante, acreditavam que suas personalidades, sua moral e suas visões de mundo, era a medida padrão a ser adotada por toda a humanidade, de modo que o mundo não poderia evoluir se não adequar-se a sua visão de mundo e seu padrão de comportamento.
O que leva um indivíduo a atingir tal nível de prepotência? Em séculos bem remotos, os sábios cunharam um termo para referir-se a um fenômeno misterioso que habitava o coração do homem, e de onde emanavam todas as barbaridades que a humanidade fora capaz de perpetrar. Chamaram-na "filaucia" (do grego "philia", amor, amizade, e "autós", próprio), ou seja, o amor próprio. Mas antes de demonizar este fenômeno natural do temperamento humano, devemos explicar que o mal não é o amor-próprio, mas o desvio de sua função natural.

Todas as pessoas devem conservar amor próprio, pois se não o tiverem, não saberão conservar amor a mais nada. Porém, como tudo nesta vida exige regras, o amor próprio também tinha seus limites. O limite que o amor próprio exigia, era a consciência das limitações humanas, tais como: nossa limitada inteligência, nossa enganosa bondade, nossa triste mortalidade, nossa fragilidade e efemeridade. Tais limitações são simplesmente ignoradas por um espírito revolucionário, cujo amor próprio exacerbado, acabou por desaguar na terrível ilusão de uma falsa superioridade moral, intelectual, e espiritual, de modo, que o revolucionário que chega a ignorar sua condição de simples mortal, concluindo como o prepotente Nietzsche: “Eu sou deus”.

Se o individuo se auto-deifica através de um amor próprio desordenado, na sua crença particular não haverá espaço para outra lei e nem para os imprevisíveis da vida. Frases como: “Tenho minhas próprias leis” ou “Eu faço meu destino”, são típicas da mentalidade revolucionária. A mentalidade revolucionária, portanto, funda-se numa escabrosa ilusão auto imposta. Mas como ninguém pode se enganar totalmente, o revolucionário adquiri ódio brutal a verdade, e por isso, distorce diabolicamente a realidade a seu bel-prazer para justificar suas crenças. Estas crenças particulares e absurdas têm implicações devastadoras: “Se não há um Deus nem uma lei natural e divina, – pois todo homem é um deus com sua própria lei –, logo, tudo é permitido em nome dessa lei e de sua falsa divindade”. Foram conclusões como estas que fizeram a mente de todos os revolucionários que despontaram na história. E são conclusões como estas que germinam silenciosamente na cabeça de numerosos adolescentes que mal alcançaram a consciência de si, mas já se acreditam aptos para mudar o mundo.